Você está preparado para ser fiel aos seus clientes?
Por Marcelo Sousa.
O sucesso comercial de uma empresa depende acima de tudo de sua capacidade de gerenciar o
relacionamento individual com cada um de seus clientes, estimulando comportamentos que resultem em maior
rentabilidade.
O conceito de que uma carteira de clientes representa o maior patrimônio de uma empresa é amplamente
aceito pela maioria dos executivos modernos, pois muito já foi dito em relação à necessidade de atribuir
valor aos clientes e de encará-los como elementos vitais para a sobrevivência de um empreendimento.
Enquanto o valor vitalício (LTV) de um cliente é a totalização de todas as suas compras em um determinado
intervalo de tempo, o faturamento de um negócio nada mais é do que a somatória do LTV de todos os seus
clientes. Por isso, o sucesso comercial de uma empresa depende acima de tudo de sua capacidade de
gerenciar o relacionamento individual com cada um de seus clientes, estimulando comportamentos que
resultem em maior rentabilidade.
Um cliente pode se tornar mais lucrativo quando ele é estimulado a comprar mais (up-sell e
cross-sell) ou por períodos mais longos. Dentre estas duas alternativas, é importante considerar
que o aumento da longevidade do cliente é sem dúvida a mudança que mais alavanca a sua lucratividade.
Muitos estudos já apontaram que uma redução de 5% no índice de cancelamento de clientes pode resultar
em até 80% no aumento da rentabilidade total de uma empresa. Portanto, um plano de retenção bem
estruturado pode se tornar uma poderosa estratégia para rentabilizar seu portifólio. A despeito dos
vários formatos que ele pode ter, em todas as iniciativas vencedoras, freqüentemente encontramos quatro
fatores comuns:
1. Seletividade na aquisição: nem todos os prospects serão clientes lucrativos
Há muitos clientes cujas despesas sempre serão superiores a suas contribuições mensais e outros ainda que
não permanecerão comprando por tempo suficiente para compensar sequer o seu custo de aquisição. Portanto,
é essencial ter uma abordagem seletiva de vendas, reconhecendo que nem todos os prospects devem ser alvos
em ações de aquisição. Idealmente, a empresa deve identificar em seu portifólio os clientes mais lucrativos
e fiéis. É essencial compreender onde eles se concentram, quais as suas necessidades, como eles se
comportam e porque escolhem fazer negócios com a companhia ao invés de optar por outro fornecedor. Esse
“raio X” pode orientar a força de vendas a compreender as características que definem um bom cliente e
principalmente a encontrar prospects semelhantes. Dessa forma, a equipe comercial poderá
conciliar as suas metas que - geralmente privilegiam o volume de aquisições em detrimento da qualidade
- com uma abordagem orientada à atração de clientes rentáveis.
Uma alternativa inteligente para atrair bons clientes é estimular os mais fiéis a indicarem amigos por
meio de programas estruturados de member-get-a-member. A experiência comprova que prospects
indicados por bons clientes têm altíssimo potencial de também se converterem em clientes lucrativos
(Pássaros de mesma plumagem voam juntos).
2. Foco nos clientes com mais chances de cancelar
Um bom plano é capaz de reconhecer que nem todos os clientes devem ser alvo de ações de retenção, pois
apenas uma parte deles é propensa ao cancelamento. Em outras palavras, investir indiscriminadamente
na retenção de toda a carteira é desperdício de dinheiro.
Os clientes menos fiéis geralmente compartilham algumas características comuns, entre as quais podemos
citar menor tempo de casa; menor faixa etária; opção por pagamento com boleto bancário; baixo índice
de uso do produto e proximidade da renovação da assinatura. Mas, como cada base de dados possui
características únicas, é mais adequado identificar quais aspectos caracterizam os clientes mais
propensos do seu portifólio.
Uma alternativa é iniciar avaliando a correlação de cada uma das variáveis do banco de dados com o
cancelamento, caminhando para a solução mais sofisticada que é o desenvolvimento de modelos estatísticos
que classificam todos os clientes de acordo com suas chances de permanecer contribuindo ou não.
Dessa forma, não mais que 30% ou 40% de seus clientes serão classificados como propensos e merecerão
o esforço de retenção.
Ao mesmo tempo, entre os propensos a cancelar existem clientes que sua empresa não tem interesse em
manter, porque nunca se tornarão lucrativos. Daí a importância de excluí-los do foco das ações de
retenção. Para estes clientes, a melhor estratégia é equalizar as despesas administrativas com a
receita que eles proporcionam, até o momento em que eles próprios sintam-se atraídos por ofertas
mais tentadoras de outros concorrentes.
3. Redução dos fatores desmotivadores da fidelidade
Nenhum programa de retenção – seja baseado em pontos e prêmios, ações de comunicação em datas especiais
para o cliente, descontos ou envio de pequenos mimos – compensará deficiências ou desvantagens de seu
produto em relação às ofertas concorrentes. Portanto, é essencial investigar quais são os aspectos
desmotivadores em sua empresa, nos produtos que você vende, nos serviços agregados, em relação ao
preço, nos canais de venda e distribuição e especialmente nos canais de atendimento. Os preços são
competitivos e justos? A empresa possui canais para o cliente se manifestar? O tempo que o cliente
aguarda para ser atendido é razoável? O produto atende a requisitos mínimos de qualidade? Não comece
enquanto não estiver pronto para responder perguntas como essas!
Dificilmente uma empresa terá recursos necessários para investir em todas essas frentes de uma só vez.
Mas a boa notícia é que cada um desses fatores influencia com intensidade diferente a perda de clientes.
Avaliar a correlação entre os fatores desmotivadores e o cancelamento efetivo pode ajudá-lo a
identificar as prioridades de investimento, visando o máximo custo-benefício. Além disso, lembre-se
que você não precisa ser perfeito, basta ser melhor do que seus competidores naqueles quesitos que
seus clientes mais valorizam.
Para identificar os fatores desmotivadores, as empresas precisam incentivar seus clientes a reclamar.
Cada reclamação deve ser vista como uma oportunidade e aprendizado. Se a empresa não mostrar genuíno
interesse em escutar e agir, os clientes deixarão de reclamar, e o que é pior: continuarão a cancelar
sem qualquer aviso.
4. Construção de barreiras de saída, oferecendo o produto certo para a pessoa certa
Reduzir os fatores desmotivadores garante que seus clientes recebam devidamente o que eles compraram,
em uma troca justa, e conseqüentemente estejam satisfeitos. Mas somente a satisfação não garante
fidelidade. Várias pesquisas apontaram que mais da metade dos clientes que trocaram de fornecedor
estavam satisfeitos com o anterior. Isso porque a fidelidade não é determinada somente pelo cumprimento
da promessa básica do produto ou serviço, como a satisfação, mas acima de tudo pela capacidade de
entregar ao cliente algo que vai além do que os concorrentes normalmente oferecem.
A fidelidade será fruto de sua capacidade de aprender individualmente sobre as necessidades, os hábitos
e os desejos de seus clientes, e da flexibilidade em adequar seus produtos e serviços para atendê-los
e gerar experiências únicas. Naturalmente, não estamos falando em criar um novo produto para cada
cliente, trata-se de criar pequenas variações em seus serviços, no atendimento, na política de
preços, no esquema de distribuição, entre outros aspectos, para servir a segmentos específicos de
formas diferenciadas.
Quanto mais você interagir e capturar informações do cliente, mais você saberá sobre ele e mais
personalizado será o seu relacionamento. Esse tipo de troca cria barreiras de saída que não podem
ser facilmente copiadas pelos concorrentes, tornando conveniente para seu cliente continuar a ser
fiel à sua empresa. Afinal, ele não pagará o preço de não encontrar nos outros fornecedores o que só
a sua empresa sabe fazer por ele.
Um plano de retenção é uma estratégia corporativa e exige que sua empresa esteja disposta a resolver
os problemas de seus clientes e a encontrar soluções para tratá-los de forma personalizada. Portanto,
antes de pensar em artimanhas para exigir que seus clientes sejam fiéis à sua empresa, avalie se ela
está realmente preparada para ser fiel a eles.
Marcelo Sousa
Especialista em rentabilização de clientes
Diretor de Planejamento da MarketData Solutions do Brasil.
E-mail: marcelo@marketdata.com.br

